A gestão de conflitos e a recuperação de ativos exigem uma postura que equilibre a preservação de relacionamentos comerciais com o rigor técnico necessário para proteger o patrimônio da empresa. Nesse cenário, a governança jurídica aplicada à formalização de acordos extrajudiciais surge como uma alternativa eficiente ao litígio prolongado, oferecendo celeridade e segurança jurídica.
Muitas empresas falham ao acreditar que um acordo é apenas uma “conversa registrada em e-mail ou mensagem”. Sem a estrutura de governança adequada, esses acordos podem se tornar obstáculos jurídicos em vez de soluções, atrasando a recuperação do capital por meses ou até anos.
O que é Governança Jurídica aplicada aos acordos?
Governança, no contexto jurídico-financeiro, refere-se ao conjunto de processos, normas e diretrizes que orientam a tomada de decisão dentro de uma organização. Quando aplicada à formalização de acordos, ela garante que as negociações não sejam baseadas apenas em concessões comerciais momentâneas, mas em critérios técnicos que assegurem a exequibilidade do que foi pactuado.
Adotar uma política de governança significa estabelecer alçadas de decisão, limites de desconto e, principalmente, padrões documentais que transformam uma negociação amigável em um título com força de lei.
Por que a formalização técnica é indispensável?
Um acordo extrajudicial sem o devido suporte técnico pode resultar em uma falsa sensação de segurança. Se o documento for mal redigido ou faltarem requisitos formais, o descumprimento por parte do devedor forçará a empresa a iniciar um “processo de conhecimento” do zero — onde será necessário provar a existência da dívida antes de cobrar.
Com a formalização correta, o acordo torna-se um Título Executivo Extrajudicial. Isso significa que, se houver novo inadimplemento, a empresa pode pular a fase de discussão e ir direto para a execução, solicitando a penhora de bens e bloqueios de contas de forma muito mais rápida.
Elementos essenciais para um acordo juridicamente robusto
Para que um termo de acordo tenha plena validade e força executiva, a governança do escritório foca em pontos fundamentais que não podem ser negligenciados:
- Confissão inequívoca de dívida: O devedor deve declarar expressamente o valor total devido, a origem do débito e reconhecer a liquidez da obrigação.
- Assinatura de duas testemunhas: Este é um requisito legal do Código de Processo Civil para que o documento particular tenha força executiva. Sem isso, o documento perde sua principal vantagem processual.
- Cláusula de vencimento antecipado: É vital prever que o não pagamento de uma única parcela acarreta o vencimento imediato de todo o saldo remanescente, permitindo a execução integral do débito.
- Garantias adicionais e avalistas: A análise técnica permite identificar a necessidade de incluir garantias reais (bens) ou fidejussórias (fiadores/avalistas), aumentando as chances de recuperação em caso de novo inadimplemento.
- Previsão de encargos moratórios: O acordo deve ser claro quanto às multas, juros e honorários advocatícios incidentes em caso de quebra do pacto, evitando interpretações ambíguas.
As vantagens estratégicas da via extrajudicial
A formalização estratégica de acordos permite que a empresa recupere liquidez de forma mais ágil do que no trâmite judicial comum, que muitas vezes sofre com o congestionamento do Judiciário. Além da redução drástica de custos com custas processuais, essa prática demonstra uma postura ética e profissional.
Em muitos casos, a via extrajudicial permite a manutenção do canal de diálogo com o cliente, viabilizando uma reestruturação do débito que respeite a realidade do devedor sem abrir mão da segurança do credor.
Compliance financeiro e segurança jurídica
Adotar uma política de governança para acordos extrajudiciais é, acima de tudo, uma medida de compliance financeiro. Ela garante que cada tentativa de composição seja um passo seguro em direção à liquidação do ativo, e não apenas uma prorrogação do problema original. Uma empresa que possui processos de formalização bem definidos transmite confiança ao mercado e protege seus acionistas contra perdas evitáveis.
Conclusão
A eficácia de um acordo reside na sua robustez jurídica e na inteligência com que é construído. Quando a governança orienta a formalização, a empresa ganha em previsibilidade, força executiva e sustentabilidade financeira.
Cada caso tem suas particularidades. Por isso, a orientação jurídica é essencial para garantir que o acordo celebrado seja, de fato, um instrumento de proteção ao seu negócio e não uma fragilidade documental.

