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sexta-feira, 22 maio 2020 / Published in Direito Trabalhista

Trabalho sem carteira assinada: quais os riscos para a empresa?

Profissional trabalhando no notebook em conteúdo sobre trabalho sem carteira assinada

Contratar profissionais sem registro pode parecer, em alguns casos, uma forma de simplificar processos ou reduzir custos. No entanto, o trabalho sem carteira assinada pode criar um passivo significativamente maior quando a relação possui, na prática, características de emprego.

A ausência de registro não impede que o vínculo empregatício seja posteriormente reconhecido. Se ficar demonstrado que o profissional trabalhava como empregado, a empresa pode precisar regularizar o período e responder pelas obrigações trabalhistas e previdenciárias correspondentes.

Por outro lado, nem toda contratação sem carteira assinada é irregular. Profissionais autônomos, prestadores de serviços e empresas contratadas podem atuar legitimamente sem vínculo de emprego.

O ponto central está em verificar se o modelo formal escolhido corresponde à realidade da prestação dos serviços.

Quando o trabalho sem carteira assinada pode gerar vínculo empregatício?

A existência do vínculo não depende apenas do nome utilizado no contrato.

A CLT considera empregado a pessoa física que presta serviços de natureza não eventual, mediante remuneração e sob dependência do empregador.

Na análise de uma contratação, também são considerados elementos como pessoalidade e a forma como o trabalho é organizado na prática.

Por isso, uma empresa pode chamar determinado profissional de prestador de serviços, autônomo ou parceiro e, ainda assim, enfrentar uma discussão sobre vínculo caso a rotina demonstre características próprias de uma relação empregatícia.

É justamente essa diferença entre contrato e realidade que precisa ser observada na gestão trabalhista.

Quais os riscos do trabalho sem carteira assinada para a empresa?

Quando uma relação de emprego deveria ter sido registrada e não foi, a exposição da empresa não se limita à anotação posterior da carteira.

O reconhecimento do vínculo pode gerar discussão sobre diversas parcelas que deveriam ter sido observadas durante toda a contratação.

Dependendo do caso, podem entrar nessa análise férias acrescidas de um terço, 13º salário, FGTS, contribuições previdenciárias, verbas rescisórias e parcelas relacionadas à jornada.

Horas extras, adicional noturno, adicionais de insalubridade ou periculosidade também podem aparecer quando as condições concretas do trabalho justificarem essas verbas.

O impacto financeiro, portanto, pode se acumular durante todo o período da relação.

Trabalho sem carteira assinada pode gerar multa?

Sim.

A legislação trabalhista prevê penalidades administrativas para empregadores que mantêm empregados sem o devido registro.

Atualmente, a CLT estabelece multa por empregado não registrado, com tratamento específico para microempresas e empresas de pequeno porte.

Além da multa administrativa, podem existir outros custos decorrentes da regularização da contratação.

Por isso, analisar somente quanto a empresa aparentemente economiza por mês ao não formalizar determinado empregado produz uma visão incompleta do risco.

O custo potencial precisa considerar toda a exposição acumulada.

Quais verbas podem ser discutidas se o vínculo for reconhecido?

Não existe um valor padrão.

As consequências dependem da duração da relação, remuneração, jornada, forma de encerramento do contrato e demais características da prestação dos serviços.

Uma contratação mantida durante vários anos pode gerar discussão sobre parcelas de todo o período ainda alcançado pelos prazos legais.

Além das verbas mensais e anuais, o desligamento também pode produzir consequências.

Se for reconhecida uma dispensa sem justa causa, por exemplo, será necessário analisar as parcelas rescisórias aplicáveis àquela relação.

Por isso, o risco cresce conforme a irregularidade permanece sem correção.

Qual é o prazo para registrar um empregado?

Hoje, grande parte da formalização ocorre eletronicamente pelo eSocial e pela Carteira de Trabalho Digital.

O registro da admissão deve ser informado até a véspera do início das atividades do empregado. Já as informações necessárias à anotação da Carteira de Trabalho possuem prazo de até cinco dias úteis após a admissão.

Assim, não é adequado manter alguém trabalhando durante alguns dias para decidir posteriormente se haverá ou não registro quando a relação já começou como emprego.

A estrutura da contratação precisa ser definida antes do início efetivo das atividades.

Existe período de experiência sem registro?

Não como uma fase informal anterior à contratação.

O contrato de experiência é uma modalidade de contrato de trabalho. Portanto, se a empresa admite uma pessoa como empregada em caráter experimental, continua existindo obrigação de formalizar essa relação.

A ideia de manter o profissional alguns dias trabalhando sem registro para depois decidir se ele será contratado pode gerar risco justamente porque, nesse período, a prestação dos serviços já aconteceu.

Se os elementos de uma relação de emprego estiverem presentes, o fato de a empresa chamar esse período de teste não elimina suas características jurídicas.

Contratar como PJ elimina o risco trabalhista?

Não automaticamente.

A contratação de uma pessoa jurídica pode ser adequada e legítima quando existe uma relação empresarial compatível com esse modelo.

O problema surge quando a empresa formaliza um contrato de prestação de serviços, mas organiza a relação como se aquela pessoa fosse um empregado comum.

Por isso, a existência de CNPJ, contrato ou emissão de nota fiscal não deve ser analisada isoladamente.

A empresa precisa observar como funciona a autonomia do profissional, a organização da atividade, a subordinação existente, a pessoalidade e as demais características concretas da relação.

E a contratação de autônomos?

O raciocínio é semelhante.

Existem atividades que podem ser regularmente prestadas por profissionais autônomos.

Porém, classificar alguém como autônomo não basta se a dinâmica da contratação demonstra outra realidade.

Antes de definir o modelo, a empresa precisa compreender qual grau de autonomia realmente existirá, como o serviço será executado e de que forma ocorrerá a relação com a estrutura interna do negócio.

Essa análise preventiva reduz o risco de criar contratos que funcionam bem documentalmente, mas não correspondem à rotina profissional.

Trabalho sem carteira assinada pode gerar problemas previdenciários?

Sim.

Quando um empregado não é devidamente registrado, informações relacionadas ao vínculo e às contribuições previdenciárias podem deixar de ser corretamente prestadas.

Caso o vínculo seja posteriormente reconhecido, podem surgir obrigações relacionadas à regularização do período.

Além do aspecto financeiro, a ausência de informações adequadas também aumenta a complexidade administrativa para a empresa.

Por isso, registro trabalhista e obrigações previdenciárias não devem ser tratados como questões isoladas.

O trabalho sem carteira assinada pode gerar problemas com FGTS?

Sim.

Quando existe uma relação de emprego sujeita ao FGTS, o empregador possui obrigações relacionadas aos depósitos correspondentes.

Se a empresa mantém um empregado sem registro e esses recolhimentos não são feitos, eventual reconhecimento posterior do vínculo pode incluir a regularização dessas parcelas.

Além disso, a forma como o contrato termina pode produzir outras consequências relacionadas ao FGTS.

Esse é mais um exemplo de como o passivo pode crescer ao longo do tempo.

A empresa pode regularizar um funcionário que já trabalha sem registro?

É possível corrigir informações e regularizar situações trabalhistas, mas a forma adequada depende do que efetivamente aconteceu.

Um ponto importante é respeitar a data real de início das atividades.

Registrar o empregado apenas a partir da data em que a empresa decidiu corrigir a situação, ignorando um período anterior efetivamente trabalhado, pode manter parte do problema.

Também podem existir informações, recolhimentos e obrigações referentes ao período anterior que precisam ser avaliados.

Por isso, quando a empresa identifica uma contratação irregular, a regularização deve ser planejada de acordo com o histórico real da relação.

Quais documentos aumentam a segurança da contratação?

A formalização deve refletir o modelo escolhido.

Para empregados, isso envolve registro adequado, definição de cargo, salário, jornada e demais informações trabalhistas pertinentes.

Em contratações autônomas ou empresariais, contratos claros ajudam a definir objeto, responsabilidades, remuneração, prazos e características da prestação.

No entanto, documento sozinho não elimina risco.

Se a rotina muda ao longo do tempo e passa a funcionar de forma diferente daquela originalmente contratada, a relação precisa ser reavaliada.

Essa revisão é especialmente importante em contratos de longa duração.

Como reduzir o risco de reconhecimento de vínculo?

A primeira medida é evitar soluções padronizadas.

Nem toda atividade deve ser contratada por CLT, assim como nem toda função pode ser transformada em prestação de serviços apenas por uma decisão financeira da empresa.

Antes da contratação, é importante definir qual modelo corresponde à necessidade real do negócio.

Depois disso, a rotina precisa permanecer coerente com essa escolha.

Uma empresa que contrata um prestador com autonomia, mas progressivamente passa a tratá lo exatamente como integrante subordinado da equipe, pode alterar a natureza prática daquela relação.

Por isso, acompanhamento também faz parte da prevenção.

RH e gestores precisam estar alinhados?

Sim.

Muitas exposições trabalhistas não nascem do contrato elaborado inicialmente, mas da forma como gestores conduzem a relação posteriormente.

O RH pode estruturar uma contratação como prestação autônoma, por exemplo, enquanto a liderança operacional começa a impor uma dinâmica incompatível com o modelo.

Por isso, gestores precisam compreender as diferenças entre empregados, prestadores e outras categorias utilizadas pela empresa.

A prevenção trabalhista depende tanto dos documentos quanto das práticas de gestão.

Contratar sem registro realmente reduz custos?

No curto prazo, pode existir uma redução aparente de determinados encargos.

O problema é avaliar essa economia sem considerar o risco acumulado.

Caso o vínculo seja reconhecido posteriormente, a empresa poderá enfrentar cobrança de parcelas referentes ao período anterior, recolhimentos, multas e custos relacionados à própria discussão trabalhista.

Além do impacto financeiro, existe tempo de gestão envolvido na organização de documentos, defesa, cálculos e regularização das informações.

Por isso, o custo de uma contratação deve considerar também sua segurança jurídica.

Quanto tempo um ex trabalhador tem para ajuizar uma ação?

Em regra, os créditos trabalhistas estão sujeitos ao prazo de cinco anos, observado o limite de dois anos após o encerramento do contrato para o ajuizamento da ação.

Isso significa que uma contratação irregular pode continuar produzindo exposição mesmo depois do término da relação.

Por isso, o encerramento do contrato não deve ser interpretado como desaparecimento imediato do risco.

A documentação precisa ser corretamente organizada e preservada conforme as obrigações aplicáveis.

Como revisar as contratações existentes na empresa?

Uma revisão trabalhista pode começar pela classificação dos profissionais que prestam serviços para o negócio.

Empregados registrados, autônomos, pessoas jurídicas, temporários, terceirizados, estagiários e outros modelos possuem características distintas.

O passo seguinte é comparar os contratos com a realidade.

Como esses profissionais trabalham? Quem define horários? Existe autonomia? Como as atividades são cobradas? O serviço é pessoal? O contrato atual ainda corresponde ao que acontece diariamente?

Essa comparação ajuda a identificar situações que merecem correção antes de se transformarem em passivos.

Trabalho sem carteira assinada: como a empresa pode reduzir riscos?

O trabalho sem carteira assinada se torna um risco relevante quando a empresa mantém como informal ou prestação de serviços uma relação que, na prática, possui características de emprego.

A melhor estratégia é definir corretamente a natureza da contratação desde o início.

Quando houver relação empregatícia, o registro e as obrigações correspondentes precisam ser observados. Quando o modelo for autônomo ou empresarial, contrato e rotina devem permanecer coerentes com essa estrutura.

Também é importante revisar relações que mudaram ao longo do tempo. Uma contratação que começou de determinada forma pode assumir outras características conforme o trabalho evolui.

A prevenção permite identificar essas situações antes que resultem em autuações, cobranças retroativas ou reclamações trabalhistas.

Cada relação profissional possui suas particularidades. Por isso, é importante contar com orientação jurídica especializada para avaliar os modelos de contratação utilizados pela empresa.

Acompanhe mais conteúdos sobre Direito do Trabalho empresarial no blog da Bogo Advocacia.

Tagged under: carteira de trabalho, consequências, CTPS, trabalho sem registro

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